
Seria difícil prever o que Sofia Coppola congeminaria depois de Lost in Translation - O Amor é um Lugar Estranho. Sendo uma das vozes mais proeminentes entre as realizadoras/cineastas do sexo feminino, o público esteve especialmente atento à chegada de um filme também ele sobre uma mulher num mundo de homens.
Aparentemente, Cannes gostou da película, escrita e realizada pela principal herdeira cinematográfica do grande Francis Ford Coppola (o produtor executivo deste filme). Nomeado para a Palme d'Or, Marie Antoinette não aspira ser um biopic (também não o aspirava o livro de Antonia Frasier de onde o guião bebeu inspiração) e tão-pouco um drama sempre direccionado para as guilhotinas da Place de la Bastille.
Porém, e apesar de todas as dissertações mediáticas geradas em torno do filme, Marie Antoinette não vive à volta de Coppola, mas sim de Kirsten Dunst. A câmara de Sofia já tem um estilo próprio, um tempo marcado, cheia de ironia e de vivacidade. Ironia e vivacidade que já vêm de As Virgens Suicidas... Mas Coppola fica-se por aí e, para compensar o que só conseguiu nos contrastes (exemplo gratia, os ténis allstar por entre os sapatos da rainha), temos uma Kirsten Dunst numa interpretação fantástica, que dispensava qualquer tipo de acessório.
Marie Antoinette conta a história dramática da rainha mais incompreendida de França, pegando numa Marie pura e virginal que vai ser corrompida pela corte do seu novo esposo: o rei Louis XVI. Pressionada para que o casamento se consuma, a rainha, ainda com dezanove anos, é forçada a ceder ao luxo e à mediocridade espiritual de Versailles. Tudo isto é narrado num ritmo frenético, sem quaisquer tentativas de sotaques afrancesados, "érres" acentuados ou finais de frase que parecem interrogações. Marie Antoinette fala com sotaque de New Jersey, tal como a banda sonora se reflecte com ritmos completamente fora de época. E ainda bem. Ouve-se Bow Wow Wow, ouve-se New Order, muitos anos oitenta sobre uma tela delirante de barroco, sem descurar os cravos e as cordas de dois minuetes de Rameau.
Então o que fica depois da parafernália de um filme que até impressiona, mas que parece tão imperfeito? Ficam momentos de bom cinema, momentos em que a realização é uma técnica simultaneamente milimétrica e alargada. O cinema cirúrgico de Sofia Coppola começa a desenhar-se em algo de mais aberto, de mais intenso, de menos preso. Tem o seu quê de tentativa de algo de muito bom, contudo, ainda se movimenta muito no status quo daquilo de que o americano está à espera. E, quando já pensávamos que Sofia Coppola tinha ultrapassado esse seu complexo de bilheteira, somos empurrados para a sala de espera... do seu próximo filme. Esperemos que a actriz e a realizadora trabalhem juntas novamente, mas, desta vez, sem que se vejam as lentes de contacto de Kirsten Dunst.
Título/Ano: Marie Antoinette (2006)
Escrito e Realizado por: Sofia Coppola
Elenco: Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Rip Torn, Asia Argento, Jamie Dornan.
Aparentemente, Cannes gostou da película, escrita e realizada pela principal herdeira cinematográfica do grande Francis Ford Coppola (o produtor executivo deste filme). Nomeado para a Palme d'Or, Marie Antoinette não aspira ser um biopic (também não o aspirava o livro de Antonia Frasier de onde o guião bebeu inspiração) e tão-pouco um drama sempre direccionado para as guilhotinas da Place de la Bastille.
Porém, e apesar de todas as dissertações mediáticas geradas em torno do filme, Marie Antoinette não vive à volta de Coppola, mas sim de Kirsten Dunst. A câmara de Sofia já tem um estilo próprio, um tempo marcado, cheia de ironia e de vivacidade. Ironia e vivacidade que já vêm de As Virgens Suicidas... Mas Coppola fica-se por aí e, para compensar o que só conseguiu nos contrastes (exemplo gratia, os ténis allstar por entre os sapatos da rainha), temos uma Kirsten Dunst numa interpretação fantástica, que dispensava qualquer tipo de acessório.
Marie Antoinette conta a história dramática da rainha mais incompreendida de França, pegando numa Marie pura e virginal que vai ser corrompida pela corte do seu novo esposo: o rei Louis XVI. Pressionada para que o casamento se consuma, a rainha, ainda com dezanove anos, é forçada a ceder ao luxo e à mediocridade espiritual de Versailles. Tudo isto é narrado num ritmo frenético, sem quaisquer tentativas de sotaques afrancesados, "érres" acentuados ou finais de frase que parecem interrogações. Marie Antoinette fala com sotaque de New Jersey, tal como a banda sonora se reflecte com ritmos completamente fora de época. E ainda bem. Ouve-se Bow Wow Wow, ouve-se New Order, muitos anos oitenta sobre uma tela delirante de barroco, sem descurar os cravos e as cordas de dois minuetes de Rameau.
Então o que fica depois da parafernália de um filme que até impressiona, mas que parece tão imperfeito? Ficam momentos de bom cinema, momentos em que a realização é uma técnica simultaneamente milimétrica e alargada. O cinema cirúrgico de Sofia Coppola começa a desenhar-se em algo de mais aberto, de mais intenso, de menos preso. Tem o seu quê de tentativa de algo de muito bom, contudo, ainda se movimenta muito no status quo daquilo de que o americano está à espera. E, quando já pensávamos que Sofia Coppola tinha ultrapassado esse seu complexo de bilheteira, somos empurrados para a sala de espera... do seu próximo filme. Esperemos que a actriz e a realizadora trabalhem juntas novamente, mas, desta vez, sem que se vejam as lentes de contacto de Kirsten Dunst.
Título/Ano: Marie Antoinette (2006)
Escrito e Realizado por: Sofia Coppola
Elenco: Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Rip Torn, Asia Argento, Jamie Dornan.



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