2007-07-08

Little Children


Little Children - Pecados Íntimos

Adaptado a partir do livro homónimo de Tom Perrotta, Todd Field realiza Little Children. Em Portugal o filme foi apresentado como Pecados Íntimos, título bem apropriado para substituir o original nome inglês. Na verdade, Todd Field adaptou o romance de Perrotta para um guião que nos fala de crianças, de pecados e de intimidade, ainda que se mova no legado deixado por Sam Mendes no seu American Beauty. Contudo, e sem pretender fazer comparações, podemos dizer que aquilo que Mendes não disse relativamente a certos temas está obviamente explícito na película de Field.

A história tem lugar num pacato subúrbio de um qualquer estado verdejante dos Estados Unidos, daqueles com largas ruas ladeadas de plátanos e cercas pintadas de madeira. Aqui, a câmara move-se em contrastes, deixando planos rápidos para mergulhar em sequências calmas e melancólicas. Somos apresentados, por meio de um irónico narrador, à vida de Sarah (Kate Winslet) e da sua filha Lucy, aos dramas de Brad (Patrick Wilson) e do seu filho Aaron. Olhamos pelas janelas, silenciosamente, e deparamo-nos com problemas conjugais, com pequenos conflitos, com banalidades do quotidiano. Julgamos um pedófilo, atacamos o adultério, cochichamos no Clube de Leitura bem ao jeito da Oprah Winfrey. Em suma, temos dentro da tela a vida suburbana de umas quantas personagens. Para qualquer um de nós, perigo é uma palavra desnecessária nestes termos.

Ao longo da trama, a teia aperta-se e o enredo torna-se mais intenso: há uma clara tensão sexual entre Sarah e Brad, com direito a subterfúgios eróticos muito bem delineados, mas tudo isto passa quase despercebido. A relação adensa-se, o tempo passa e o sentimento é o mesmo, dito assim neste tom meio abstracto. Na verdade, o filme não nos fala de certezas. Tão-pouco procura explicar a maldade ou justificar a perversão. Muito menos coloca no acto sexual a explicação para todos os acontecimentos. Simplesmente narra.

O espectador mal se apercebe de que o guião se contorce, de que as personagens não são apenas pessoas do dia-a-dia, no entanto, quando se faz o interessante paralelismo entre a Madame Bovary de Flaubert e a vida de Sarah damos conta de tudo o que aconteceu. A idealização da patologia num corpo só e o investimento sexual não são apenas bonecos para aromatizar a história, servindo sim um objectivo bastante claro e despegado de interpretações românticas. O pedófilo sente como outro homem qualquer, sofre sobretudo; os amantes adúlteros sentem o peso da culpa. Muito para além do mal, muito para além do acto de pecar. E Todd Field consegue encontrar uma forma perfeita de o dizer sem ter de justificá-lo, como se o percurso trilhado pelas personagens não pudesse ser outro.

A película assume-se brilhante desde o seu início, embora guarde para o final o momento mais intenso da história e, consequentemente, o momento mais bem conseguido a todos os níveis. Conjugando uma boa banda sonora, excelentes interpretações e uma câmara bem enquadrada, atingimos o pretendido. Funcionado tudo como um acto sexual, Field sagra-se perfeito ao filmar o momento post-coitum. As personagens repousam, descansam depois de toda a intensidade, dando conta de que tudo o que procuraram esteve sempre ao seu alcance, ao seu lado. E, mais do que isso, converte-se o inimaginável perigo num castigo dostoevskiano: há um exaltar das figuras que nos acompanham sobre a sombra do crime cometido, há uma nova perspectiva que transforma o pecado em inocência.

Como último destaque, refira-se uma Kate Winslet cada vez mais madura, cada vez mais capaz de uma maravilhosa interpretação, já reconhecida pelas nomeações para o Óscar e BAFTA na categoria de Melhor Actriz Principal. Para além deste enorme contributo, o filme já está nomeado para Óscar de Melhor Argumento Adaptado. Prémios e pecados à parte, vale o que é humano, o que é inocente, o que é íntimo.


Título/Ano: Little Children (2006)

Realizado/Escrito por: Todd Field

Elenco: Kate Winslet, Patrick Wilson, Jennifer Connelly, Gregg Edelman, Jackie Earle Haley, etc.

1 alias:

B. disse...

Kate para mim é a melhor actriz dos novos tempos, não falha, é do mais certo que conheço, e além disso, consegue sempre subir para um patamar genial, quando assim é preciso.

O filme é fortíssimo, e coloca-nos em todos os sentidos em mais um subúrbio norte americano, mais um, sim, já não é original, e isso dá valor ao filme, simplesmente porque não sendo original, não perde em nada qualidade.

É muito forte, apareceu numa fase em que parecia moda, mas o cinema também é feito disso, e temos de aplaudir quando tão simplesmente, é tão bom.

Quanto à Jennifer Connelly, mais velha, e mantém-se linda de morrer, e boa actriz.