
“E Música nunca mais será a mesma…”
Quando Milos Forman realizou, em 1984, Amadeus, sobre a vida de Mozart, conseguiu arrancar à Academia oito Óscares, trinta e dois prémios (incluindo um BAFTA para melhor Filme e um Globo de Ouro) e treze nomeações. Inevitável será, portanto, comparar estes dois filmes, que, embora bastante diferentes, trouxeram de uma forma paralela algo de novo ao cinema. Em primeiro lugar, nenhum deles pretende convencer a plateia de que Mozart ou Beethoven eram génios, antes pelo contrário. Sendo isso perfeitamente palpável nas figuras magistrais e nas obras dos dois compositores, estas películas humanizam-os, mostram o seu lado sensível, igual ao de todos os restantes mortais.
Agnieszka Holland realiza o filme Copying Beethoven, assente num formato já antes visto: a utilização de uma personagem fictícia para ler com outros olhos uma personagem histórica. E Holland pega nos últimos anos da vida do grande compositor alemão e narra-os de uma forma íntima e crua. Para interpretar Ludwig van Beethoven, escolheu Ed Harris, que encarna este titã da Música numa prestação incrivelmente brilhante, mostrando ao espectador um Beethoven irascível, solitário, intempestivo, cativante, apaixonado pela composição. E a semelhança física é notável... É certo que a magnífica interpretação de Ed Harris poderia ofuscar outras presenças, porém, e uma vez que a inserção de uma personagem fictícia serve de mote para outra leitura/audição do génio, há um lugar de destaque para a actriz alemã Diane Kruger no papel de Anna Holtz.
É Anna Holtz que é recomendada ao editor do compositor como a aluna mais brilhante do Conservatório da metrópole cultural europeia: Viena. Após várias tentativas para convencê-lo de que uma mulher pode ser copista, Anna consegue que o editor aceda e que a reencaminhe para a casa de Beethoven. Anna depara-se com um quarto caótico, sujo, e com um Beethoven furioso, praticamente surdo, indisponível senão pelo meio da sua Música. A tarefa da jovem compositora é simples: copiar a partitura da Nona Sinfonia para que possa ser publicada. Isto, a quatro dias da Estreia perante a comunidade intelectual austro-húngara.
Ao longo do filme, apercebemo-nos da figura genial que foi Ludwig van Beethoven. Num curto espaço de tempo, mostra-se a revolução que a sua Música representou para a época, explora-se o seu processo de criação artística, mexe-se na sua solidão, toca-se no seu sentimento religioso. Nesse curto espaço de tempo percebe-se que, tal como numa Sinfonia, o todo é muito mais do que a soma das partes.
A realização é praticamente perfeita, com espaço para que se espelhe a ferocidade da acção, a alma do compositor, o material de que se compõe o génio, quer recorrendo a close-ups sobre lábios, sequências alucinantes delineadas pelas quatro vozes das fugas, ou momentos de silêncio que se abatem para abafar sons tão necessários. E em primeiro plano não está o sofrimento de Beethoven, tão-pouco o lirismo de Anna Holtz para compreender a sua vida. Em primeiro plano estão traços, estão sinais que se codificam em Música, que se traduzem numa linguagem que sempre se desenvolveu e cresceu na mente do compositor. E está também a necessidade de progresso face a algo conformado, algo coercivo, imposto por quem afasta a lisonja para se concentrar no “silêncio que existe entre duas notas”.
Como seria de esperar, a banda sonora recai sobre Beethoven, destacando-se, para além da Nona Sinfonia, a Grosse Fugue¸ alguns Concertos para Piano e Orquestra, entre outros. Apesar de, à primeira vista, existirem alguns contrastes entre a acção e a música, encontram-se momentos de rara beleza ao longo deste filme: reflectem-se estados de espírito como algo exprimível através de sons e não de imagens. Também nos confrontamos com situações que nos abanam verdadeiramente e decorrem sem palavras: por exemplo, a direcção de orquestra sobre a batuta segura nos dedos de um homem surdo é uma sequência abreviada da Nona Sinfonia.
Copying Beethoven não se compadece, não dá explicações, não se afasta do nu e não teme o íntimo. Sem hesitações. Com virtuosismo. Sem escapar à comparação, aqui reside o mérito deste filme sobre Amadeus. Não obstante, Copying Beethoven é um filme no qual se cruzam verdadeiros pontos fortes, verdadeiros traços de génio.
Título/Ano: Copying Beethoven (2006)
Realizado por: Agnieszka Holland
Escrito por: Stephen J. Rivele & Christopher Wilkinson
Elenco: Ed Harris, Diane Kruger, Ralph Riach, Matthew Goode, Joe Anderson.



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