
Ainda que tenha chegado ao público depois do filme de Stanley Kubrick, o livro A Clockwork Orange de Anthony Burgess já tinha sido publicado antes disso, embora não tivesse sido lido na medida em que o filme foi visto. Depois da polémica instaurada com a saga alucinante de Alex e do seu gang, chegou aos amantes deste filme o livro que lhe serviu de mote. Considerado por muitos a obra-prima de Anthony Burgess, A Clockwork Orange conserva, nos dias de hoje, um mérito quase sombrio, colado à grandiosidade de toda a obra de Kubrick.
O facto de que o filme de Kubrick é absolutamente genial não suscita grandes dúvidas, do mesmo modo que instaura grandes polémicas sobre o seu conteúdo. Motivos mais do que suficientes para se passar os olhos sobre as páginas deste livro. Escrito na primeira pessoa, Alex narra o que todos já vimos na tela: o seu universo londrino futurista, com inúmeras referências à sexualidade e à Arte. Rodopiamos com ele na esfera podre de sexo, violência e ausência de moral, enquanto seguimos de perto a sua história perturbadora: o seu pequeno percurso, com os seus pequenos detalhes inundados com a música de Beethoven. Somos levados ao local mais malévolo, mas também ao local mais humano, derrubando as fronteiras da Liberdade propostas para a civilização ocidental.
Sendo um livro, um dos fenómenos mais interessantes é a linguagem usada por todas as personagens... Anthony Burgess é o mestre por detrás do calão que se escuta no filme de Kubrick e que se lê neste livro. Misturou essencialmente um russo adulterado com algumas dezenas de palavras inventadas, tornando o livro praticamente incompreensível. Requer, portanto, uma boa dose de motivação para descodificar vocábulos como devotchka (rapariga), droog (amigo), podooshka (almofada), ou mesmo outros que são oriundos do calão cockney britânico. Chamou a esta linguagem Nadsat (palavra russa para adolescente).
O autor recusou-se a integrar um glossário no final do livro e, como resposta às críticas, explicou apenas o significado do seu título (apêndice que o filme deixa em aberto). Como explicação, faz referência ao condicionamento clássico de Pavlov, muito explorado no tratamento de Alex através do método Ludovico. Assim, criou-se a linguagem própria, explorou-se os limites entre o Bem e o Mal, alcançou-se uma nova descrição da patologia vs. normalidade. Enterrámos os olhos em dilemas éticos, auscultámos a satisfação das pulsões, condensou-se toda a cultura psicanalítica numa obra só. Todos nos interrogamos, então, que nome está ao lado de A Clockwork Orange? Que nome soa quando alguém se lhe refere?
Provavelmente, o filme e o livro são indissociáveis. Um visão atenta do filme não dispensa uma leitura. E quem pega nas páginas de Burgess certamente verá com outros olhos a película colossal de Stanley Kubrick. Permitindo-me a ironia, e estando ambos os autores mortos, a questão presente não é o mérito, é a indispensabilidade cultural... E aqui, não se vence nem se perde, é-se fundamental.
Título: A Clockwork Orange
Autor: Anthony Burgess
O facto de que o filme de Kubrick é absolutamente genial não suscita grandes dúvidas, do mesmo modo que instaura grandes polémicas sobre o seu conteúdo. Motivos mais do que suficientes para se passar os olhos sobre as páginas deste livro. Escrito na primeira pessoa, Alex narra o que todos já vimos na tela: o seu universo londrino futurista, com inúmeras referências à sexualidade e à Arte. Rodopiamos com ele na esfera podre de sexo, violência e ausência de moral, enquanto seguimos de perto a sua história perturbadora: o seu pequeno percurso, com os seus pequenos detalhes inundados com a música de Beethoven. Somos levados ao local mais malévolo, mas também ao local mais humano, derrubando as fronteiras da Liberdade propostas para a civilização ocidental.
Sendo um livro, um dos fenómenos mais interessantes é a linguagem usada por todas as personagens... Anthony Burgess é o mestre por detrás do calão que se escuta no filme de Kubrick e que se lê neste livro. Misturou essencialmente um russo adulterado com algumas dezenas de palavras inventadas, tornando o livro praticamente incompreensível. Requer, portanto, uma boa dose de motivação para descodificar vocábulos como devotchka (rapariga), droog (amigo), podooshka (almofada), ou mesmo outros que são oriundos do calão cockney britânico. Chamou a esta linguagem Nadsat (palavra russa para adolescente).
O autor recusou-se a integrar um glossário no final do livro e, como resposta às críticas, explicou apenas o significado do seu título (apêndice que o filme deixa em aberto). Como explicação, faz referência ao condicionamento clássico de Pavlov, muito explorado no tratamento de Alex através do método Ludovico. Assim, criou-se a linguagem própria, explorou-se os limites entre o Bem e o Mal, alcançou-se uma nova descrição da patologia vs. normalidade. Enterrámos os olhos em dilemas éticos, auscultámos a satisfação das pulsões, condensou-se toda a cultura psicanalítica numa obra só. Todos nos interrogamos, então, que nome está ao lado de A Clockwork Orange? Que nome soa quando alguém se lhe refere?
Provavelmente, o filme e o livro são indissociáveis. Um visão atenta do filme não dispensa uma leitura. E quem pega nas páginas de Burgess certamente verá com outros olhos a película colossal de Stanley Kubrick. Permitindo-me a ironia, e estando ambos os autores mortos, a questão presente não é o mérito, é a indispensabilidade cultural... E aqui, não se vence nem se perde, é-se fundamental.
Título: A Clockwork Orange
Autor: Anthony Burgess



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