2007-07-07

Babel


Babel é um dos filmes mais falados nos últimos meses, um sucesso de bilheteira, um favorito na corrida aos Óscares. Transporta consigo uma aura quase messiânica de uma promessa de um filme a sério, de um produto artístico. Realizado por Alejandro González Iñárritu, Babel é efectivamente filme maravilhoso e um dos filmes que se destaca de todo o cinema que se faz nos dias de hoje. Prima assim pela diferença, pela qualidade e nunca pelo estrondoso número de nomeações que traz atrelado à sua fama.

Por muito que já se tenha sido visto no cinema (em Magnolia ou mesmo em Crash), a acção repartida por espaços distintos, com histórias e personagens relacionadas é uma fórmula re-inventada por Iñárritu: a prodigiosa câmara do realizador mexicano leva-nos a Marrocos, à fronteira entre o México e os Estados Unidos, e ao Japão, em três histórias paralelas. Em Marrocos, o americano Richard (Brad Pitt) tenta salvar a sua mulher Susan (Cate Blanchett) depois de um ferimento quase mortal. Na fronteira, a desesperada Amelia (Adriana Barraza) regressa com duas crianças americanas ao seu solo natal. No Japão, Chieko (Rinko Kikuchi) vive atormentada pelo suicídio da mãe e pela ausência do pai.

O mito bíblico de Babel diz respeito à construção da torre homónima, uma tentativa inglória por parte dos Homens com o intuito de alcançar o céu. Deus acaba de vez com a ambição e a arrogância humanas, provocando uma diferenciação linguística: criam-se idiomas diferentes, línguas diferentes, provocando o caos. No filme, em três situações muito distintas, no seio de três povos diferentes, no meio de culturas diferentes, com línguas diferentes, seres humanos tentam sobreviver. Travam a mais dura das batalhas, atravessando o limiar da língua, do dinheiro, da religião. Iñárritu desprotege os nossos sentidos quando introduz dialectos, linguagem gestual ou alterações na audição. Pinta um quadro objectivo de situações concretas, sem recorrer a insinuações ou factos históricos.

Com uma realização tão perfeita, contamos também com interpretações fabulosas: Brad Pitt alcança um dos seus grandes momentos no cinema neste filme, Cate Blanchett resplandece, como vai sendo hábito, Gael García Bernal surpreende mais uma vez com o seu Santiago (sobrinho de Amelia). Excelentes interpretações alinham-se a mudanças súbitas quer a nível geográfico quer a nível cronológico. Momentos verdadeiramente poéticos desafiam a belíssima fotografia, num conjunto perfeitamente enquadrado com a banda sonora de Gustavo Santaolalla (onde se ouve também uma música de Ryuichi Sakamoto).

Babel traz muito de fresco à sala de cinema, envolvendo o espectador nas histórias profundas e intensas, expressas em línguas provavelmente desconhecidas. Junta as peças que inadvertidamente são apresentadas, dividindo papéis entre actores consagrados e actores menos conhecidos (e não menos extraordinários) de um modo equilibrado, conferindo ao filme um tom diferente das produções hollywoodescas. Baseia-se sobretudo numa idea muito bem trabalhada, que vai muito além de filmes semelhantes na sua forma de narração interrompida e baralhada (como o Traffic – Ninguém Sai Ileso de Steven Soderbergh).

Ainda que ofereça um tom documental em certos momentos de algumas histórias, Babel é um dos grandes filmes de 2006 e uma excelente criação artística de Alejandro González Iñárritu. Mesmo encontrando algumas imperfeições no modo como o guião está escrito, o filme é um grande momento de cinema, é uma experiência que abraça profundamente as culturas do mundo em que vivemos. Consegue observar, narrar, poetizar como só Iñárritu consegue.


Título/Ano: Babel (2006)

Realizado/Escrito por: Alejandro González Iñárritu / Alejandro González Iñárritu & Guillermo Arriaga

Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Gael García Bernal, Kôji Yakusho, Adriana Barraza, Rinko Kikuchi, etc.